Histórico de organização das FLAPOA

Em 2010, aconteceu a 1ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre (FLAPOA), e desde então, essa feira vem acontecendo todos os anos, em novembro, em diferentes espaços da cidade. Sem modéstia, podemos dizer que a realização desta feira foi um dos fatores que estimulou o surgimento de feiras anarquistas em diferentes lugares do brasil e da américa do sul nos últimos anos. A ideia é que esse seja um espaço para que diferentes coletivos, e também pessoas sem vínculos a coletivos, compartilhem suas ideias e práticas libertárias, além de divulgar todo tipo de material anarquista: livros, zines, cartazes, etc. Mas não é só uma feira de exposição de materiais, também tem uma ampla programação de oficinas, bato-papos, exibição de filmes, teatro… Até agora, temos conseguido fazer com que estejam presentes na feira praticamente todas as diferentes perspectivas existentes sobre o anarquismo na cidade, fazendo com que a feira seja diversa e inclusiva. Por isso, ela vem crescendo a cada edição, e tem sido importante para muitas pessoas se aproximarem às ideias e às iniciativas já existentes.

Mas nestes quatro anos, também muitas coisas mudaram. As pessoas que estiveram envolvidas na organização das feiras anteriores também estão envolvidas em outras iniciativas, e gostariam de passar adiante a tarefa de organizar este evento. Muitas pessoas nos perguntam se vai ter feira este ano, como se a feira acontecesse sozinha, ou se já fosse algo dado. Não é. Como aprendemos de maneira cada vez mais forte na medida em que vamos nos envolvendo no anarquismo, as coisas só acontecem se as fazemos acontecer, a autogestão só depende de nós. Então, a tarefa é aumentar esse nós. Que venham outrxs organizar este evento, e que ele se transforme junto com a transformação de iniciativas anarquistas na cidade.

Neste texto, a intenção compartilhar um pouco de como esta iniciativa vem se construindo e transformando nestes quatro anos, com a intenção de que novas pessoas possam ir se apropriando dela e continuem fazendo com que ela aconteça. Consideramos que é importante registrar as experiências que temos, compartilhar os aprendizados e assim, espero, transmitir ao maior número de pessoas possível alguma inspiração para seguir multiplicando as ideias e práticas anarquistas pelo mundo. Faz parte do princípio de descentralização que é uma das nossas bases. Mas percebemos que muitas vezes este processo é impedido por vários motivos, e algumas ideias acabam morrendo quando ficam atadas às pessoas que inicialmente as promoveram.

Um dos motivos para não escrever sobre nossos processos de organização é que temos medo, porque sabemos que vivemos numa sociedade do controle que usará toda a informação que compartilharmos sobre nós mesmxs para nos mapear e, provavelmente, nos atacar. Mas ao não escrever, também colaboramos com nosso próprio apagamento da história, e impedimos que novas gerações conheçam o que já foi feito e tenham que recomeçar muitas vezes. É uma faca de dois gumes, mas alguns de nós acreditam na importância de registrar nossas ações.

Outro motivo frequente para não escrever sobre estas coisas é a dificuldade de fazê-lo sem nos expor pessoalmente, vinculado ao fato anterior, fazer com que esse registro não nos exponha mais do que o necessário. Nem as nossas vidas pessoais, nem as das nossas organizações, nossas diferenças e desencontros. Nossas fraquezas e dificuldades devem ser debatidas internamente sempre, para crescermos e nos fortalecermos, mas não expostas para que sejam usadas contra nós.

Fazemos essas duas ressalvas porque é a partir delas que este relato está escrito, tentando levar isso em consideração o tempo todo. A ideia é simples: passar adiante informação básica do que é necessário para que a FLAPOA aconteça.

Então, coisas básicas:

Data

  • A FLAPOA é realizada no início do mês de novembro porque aproveita a data da feira do livro comercial de Porto Alegre, para chamar a atenção para a limitação dos conteúdos dos livros dessa feira comercial e de todo o negócio editorial por trás dela. Geralmente aproveitamos o fato de que haja feriados nos dias 2 e 15 de novembro e adequamos a data a um desses feriados, para facilitar a participação de pessoas de fora da cidade. Tomamos o cuidado de coordenar a data com o pessoal de São Paulo, que nos últimos três anos tem também organizado eventos nessas datas, especialmente a Biblioteca Terra Livre.

Comunicação

  • A FLAPOA tem um site: flapoa.libertar.se. Nele, você pode encontrar registros das quatro edições anteriores, fotos, programação, cartazes, textos de divulgação. Assim, você tem uma ideia dos conteúdos que já circularam até agora. Também tem uma lista de links dos coletivos que colaboraram e participaram ao longo deste tempo.
  • O We Riseup tem sido uma ferramenta importante de comunicação para organizar a feira. Mas devido a várias situações complicadas, percebemos cada vez mais que é importante entender o we apenas como uma ferramenta para criar registro dos acordos e construir os textos coletivos que são necessários, mas nunca para fazer debates e tomar decisões por esta via. Os debates e decisões devem acontecer em reuniões presenciais. Isso se deve a vários fatores: 1. não são todas as pessoas que participam da organização da feira que sabem (e se dispõem a) usar o we riseup; 2. o meio virtual tende a aumentar os desacordos, alimentando egos, ao invés de encontrar soluções práticas para resolver os impasses; 3. não é seguro deixar registrado por escrito as nossas desavenças, o que só nos fragiliza.
  • Apesar das limitações que o we possa ter, em todos estes anos concordamos em não organizar NADA através do facebook. Os motivos são muitos, e vários coletivos têm feito essa reflexão. Fazemos, sim, divulgação através do facebook, uma vez que temos os cartazes e os textos de divulgação. Mas nunca vinculando nossos nomes como organizadorxs, expondo nossos perfis ou, o que é pior, expondo nossas desavenças através desse meio.
  • Então, todas as decisões são tomadas em reuniões presenciais, que se organizam de acordo com a dinâmica de quem está participando… geralmente, são necessárias reuniões quinzenais, pelo menos nos três ou quatro meses prévios à feira.
  • Outra contribuição importante do we riseup tem sido facilitar a aproximação de pessoas e coletivos de fora de Porto Alegre, e inclusive sua colaboração na organização. Facilita que as pessoas autogestionem sua inscrição de atividades na programação montada em um texto em wiki, divulguem sua necessidade de alojamento, sua disponibilidade para participar em comissões e contribuam com ideias.
  • Costumamos criar um grupo de we riseup para a organização de cada feira, para que se somem apenas as pessoas que realmente se dispuserem a colaborar com essa edição da feira, e não misturar os debates com os dos anos anteriores.
  • Existe um e-mail da feira: flapoa@libertar.se, que pode ser usado para inscrições de atividades para aquelas pessoas que não queiram usar o we riseup. O uso desse e-mail pode ser passado adiante sem problemas, compartilhando a senha diretamente com as pessoas que se responsabilizarem por tocar o evento. O mesmo é válido para o site, que é um blog com plataforma wordpress. Apesar de o endereço do site conter .deriva.com.br, isso não significa que seja de posse desta editora, apenas que essa foi a via mais prática que tivemos para criá-lo naquele momento.
  • Nossa opção tem sido por não dar entrevista para a Zero Hora, mas outros meios de comunicação alternativos nos procuram às vezes através do e-mail para entrevistas.

Local

  • O lugar de realização da feira sempre é um assunto importante a ser decidido no início da organização. Sempre temos o impasse lugar público x lugar fechado, o que geralmente também implica lugar aberto x lugar fechado. Os argumentos a favor do primeiro são a visibilidade e a ocupação do espaço público, mas suas desvantagens são a dificuldade de sustentar um espaço público por dois ou três dias (que é a duração que a feira costuma ter), em relação à repressão, assim como o fato de, ao ser um lugar aberto, estarmos expostos ao sol e à chuva, sendo que esta é incompatível com a venda de livros. Também levamos em conta questões de infraestrutura, como acesso a banheiros e a possibilidade de cozinhar e/ou lavar louça, caso decidamos fazer comida. Temos tentado realizar as feiras nos espaços de coletivos anarquistas também para ajudar a divulgá-los e mostrar que já existimos na cidade, mas sempre temos que tomar em conta as condições que cada espaço presta. Também levamos em conta a necessidade de segurança em relação a ataques de grupos skins e neonazi.
  • A terceira FLAPOA aconteceu na usina do gasômetro, e isso teve algumas vantagens e várias desvantagens. Foi a feira que teve mais alcance na sua divulgação, mas muitas pessoas nos criticaram por fazer um evento desses num espaço do governo municipal. E efetivamente, tivemos que lidar com a guarda municipal e com a presença de câmeras de vídeo por todos lados. Além do mais, o fato de que mais pessoas circulassem pela feira não necessariamente levou a que se detivessem a prestar atenção nas nossas propostas, e nos expôs a mais preocupações com nossa própria segurança. Ficou o aprendizado.

Logística e recursos

  • Em cada feira, dependendo da disponibilidade das pessoas envolvidas na organização, e do lugar onde acontece, decidimos se fazemos comida e se vendemos bebida. Na primeira FLAPOA, em 2010, um empréstimo pessoal permitiu a venda de cerveja, que por sua vez gerou um caixa que foi guardado de um ano para outro e permitiu que houvesse bar também no segundo ano; que por sua vez de novo gerou recursos que ficaram para o terceiro ano. Em 2012 não houve bar, e o dinheiro dos anos anteriores foi usado para gastos de materiais e infraestrutura que foram necessários. Em 2013, o dinheiro que tinha permanecido dos anos anteriores terminou de ser usado em infraestrutura, e atualmente a FLAPOA não conta com nenhum recurso. A opção, nas últimas duas edições, é fomentar a venda de comida e bebida por parte de vários coletivos autogestionários de alimentação que existem na cidade. Mas sempre é necessário algum recurso para questões logísticas, então a organização deste ano teria que ver como levantar essa parte.
  • Como você pode ver no site, e nos grupos de we das feiras anteriores, geralmente fazemos um texto chamando pessoas a proporem atividades para a programação. A partir das propostas recebidas, colocamos horários encaixando tudo, confirmando com as pessoas que propuseram a atividade. O contato com editoras costuma acontecer a partir das redes de contatos das pessoas envolvidas na organização, e eventualmente através de e-mail se não conhecemos as pessoas de alguma editora.
  • Também nos colocamos um prazo interno para a proposta de cartazes, de preferência com pelo menos um mês de antecedência. Valorizamos bastante que os cartazes circulem fora da internet, impressos e distribuídos em diversos lugares da cidade. Isto também gera um custo que tem que ser levado em conta na questão dos recursos.
  • Até agora, o que fizemos foi criar comissões de comunicação, logística, segurança e alimentação, distribuindo as tarefas combinadas nas reuniões.

Bom, é isso. Tudo isso será, provavelmente, transformado pelas novas pessoas que se envolverem na organização da feira. A informação que está aqui é bastante básica e pode ser considerada como subestimando as pessoas que querem se envolver na organização da feira, mas a intenção é que qualquer pessoa se sinta capaz de fazê-lo, e esperamos que seja útil. Qualquer dúvida, a via mais fácil de estabelecer contato com quem já organizou a feira é pelo we riseup, onde podemos dar algum apoio para passar adiante qualquer informação necessária.