Reflexões sobre anarquismo, a partir da 3ª FLAPOA – Rodrigo Gagliano

OS ANARQUISMOS NO BRASIL HOJE1

Os anarquismos contemporâneos no Brasil são, sobretudo, frutos de uma cultura livresca, apesar de todas as dificuldades para isso. Ainda falta volume editorial. Ainda não criamos volume social em nossas ações e formas de existência.

Por conta duas ditaduras, a de Getúlio Vargas e a dos milicos de 1964, houve um cisma entre as gerações de anarquistas, os de hoje e os de ontem. Tentamos recuperar os nossos rastros históricos – em muito apagados por nossos inimigos estatistas de todas as denominações – das gerações do fim do século 19 e início do 20 e do movimento renascente a partir da década de 1970. Essa geração do renascimento tem muita coisa arquivada e, por motivos que somente ela pode esclarecer, ainda não divulgada massivamente. Ouvi a fala de um compa dos anos 1970, de O Inimigo do Rei, e outro, dos 1980, punk das antigas, e ambos dizem dessa falta com o movimento…

Os anarcopunks, híbridos autocriados a partir do encontro de duas espécies diferentes, os punks e os velhos anarcossindicalistas sobreviventes, pela década de 1980 e começo da seguinte, foram capazes de criar barulho, nos principais centros urbanos do país. Já hoje, o movimento anarcopunk persiste, porém, deu uma arrefecida em seus ímpetos… As suas guitarras tem feito muito mais que os coquetéis molotov.

De meados da década de 1990 adiante, o movimento anarquista, com seus múltiplos prefixos ou adjetivos, se transformou em QUASE tão somente um movimento culturalista em que ações são particularmente formulações de festas e outros eventos, como debates, encontros e congressos, PRATICAMENTE, restritos aos guetos e às universidades, de alguma forma, nessas ocasiões, também transformadas em guetos temporários. Nesses anos, em um ou outro evento que estive para além do gueto, como foi, dessa vez, a 3ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre, acontecida entre os dias 16 e 18 de novembro agora, 2012.

A feira, com consentimento do estado, em sua esfera municipal, aconteceu num espaço de cultura daquela cidade chamado Gasômetro. Digo isso apenas como provocação e um dos indícios de que os anarquismos aqui no país sequer causam algum receio ao estado e outros poderes… Somos bichos domados e domesticados? Parece que sim…

Da feira participaram quase somente adultxs, a maioria era da própria cidade, mas contávamos com pessoas de outras províncias brasileiras, principalmente, da região sul deste país, como eu mesmo, algumas pessoas oriundas de outros lugares como Argentina, Uruguai e Espanha. E, para variar, no evento, como é comum no Brasil, mais uma vez, esquecemos as crianças, sua presença, sua curiosidade e seus interesses… Continuamos esquecendo as futuras gerações como se elas não fossem também protagonistas de mudanças nesse país. Por que não deixamos as crianças e mais jovens participarem da anarquia? Poderíamos pensar ainda nos mais velhos, onde estão os mais velhos? Não morreram…

Além de participar da montagem do espaço com as generosas pessoas que organizaram e tornaram possível o evento, de comprar livros que atiçaram minha curiosidade, participei de alguns bate-papos programados e ocorridos na feira.

Participei de conversas sobre gêneros, ou sobre a inexistência desejável deles, numa discussão anarcoqueer. E ficou a impressão que, apesar das críticas à sociedade capitalista e à heteronormatividade, com as quais concordo, estava surgindo uma outra forma de normatividade que conjuga amor livre e o queer, apontando como suspeitos e indesejáveis e autoritárias quaisquer expressões de performance sexual-amorosa hetero e monogâmica. Vi posturas intolerantes e autoritárias, deixando de lado afetividades e o fato de que xs amantes devem ser livres e não os modelos de relacionamento… Vi, o que me deixou perplexo, anarquistas utilizando, sob a sombra de autores pós-modernistas, como Foucault e Deleuze – os quais não consigo sequer qualificá-los de libertários, com suas filosofias conformistas – metáforas(?) com a temática das máquinas para seres humanos. O luddismo sexual que pregavam não quebrava as formas sociais que fazem xs humanxs serem tratadxs como máquinas, serem máquinas, queriam apenas trocar os programas. Programas? Era uma redução do humano em nós à mera performancidade sexual. Falavam abertamente em (re)programação, numa filosofia político-sexual para lá ruim… E quando questionadxs sobre as contradições sobre as quais se inclinavam tão respeitosamente achavam suficiente e aclarador dizer que a negativa à contradição era uma coisa nascida a partir do século 18… Como se coerência entre ideias, de discurso, entre vida e teoria, fosse uma exigência apenas do século 18 e, além do mais, necessariamente autoritária. Essa sexualidade des-afetiva se tornou um tema centralizador e aprisionante para aquelas pessoas… A sexualidade e seus desdobramentos existenciais e sociais não eram mais apenas uma de tantas questões que nós anarquistas nos propusemos a pensar e viver. Uma armadilha…

Também estive em outros dois bate-papos, com três temas históricos para o movimento anarquista: luta antimanicomial, luta antiprisional e educação libertária. Os três temas tinham algo em comum: ficou claro a impotência e falta de propostas de ação de nossa parte, anarquistas. Nossa criatividade social é escassa e tem insistindo em velhos caminhos… Há também um recuo histórico, assim como não dizemos mais, por esse país, “não vote” e dizemos “vote nulo”2, não dizemos mais “pelo fim das prisões”, mas pelo “abolicionismo penal”. Ambas as fórmulas dizem o mesmo? Creio que não… Para muitos, não se fala mais em abolir prisões, manicômios, quase se fala em melhorias, ou se fica nas nuvens das abstrações ancoradas APENAS em imaginárias microrrelações expostas em frases como essa “nós, anarquistas, deveríamos pensar como tratamos os loucos”. Vc conhece algum/a louca? Nem eu. Esses rótulos ainda têm pertinência para nós?

Nesse miolo todo, tratou-se da violência presente entre nós anarquistas, violência de gênero – homens batendo em mulheres – e violência sexual. Contou-se um caso ocorrido, recentemente, na cidade de Curitiba de um anarquista(?) ter batido em sua companheira. “Que fazer?” era a pergunta. E mais uma vez a impotência das respostas esteve presente. Não sabemos autogestionar nossa própria violência e caímos em fórmulas vagas de não-violência. Ou será que xs anarquistas acham que, se um dia, conseguirmos criar amplamente anarquias, isto é, sociedades anarquistas, isso por si só, como um sopro, espantará nossa violência? Não conseguimos dar conta dela nem no nosso gueto!!!

Anarquistas deste país, no ano que vem, entra em vigor a lei antiterrorismo, estamos preparados? E, nesta famigerada lei, se será enquadrado por muito pouco como terrorista… Como faremos se formos para as prisões? Os presos têm dado demonstração efetiva de estarem se organizando politicamente, o que é bom, mas já perceberam que tipo de política? Tão opressora e hierárquica quanto a política do estado… Como lidaremos com isso lá dentro? Se, obviamente, sairmos de nossa cordeirice… E aqui fora, como formularemos nossa solidariedade com os de dentro?

Não tenho respostas para muitas dessas questões e sim a disponibilidade de diálogos, saindo das nuvens, e, penso yo, que apenas assim poderemos reativar nossa criatividade existencial e social e criarmos volume libertário nessa sociedade brutal, prisional e desigual.

São tantas perguntas que o meio anarquista brasileiro não tem sequer pensado ou tentado respondê-las… Sinto por nossa impotência!

Rodrigo C. Gagliano

1 Esse texto é inspirado pelo sentimento (re)vivido pela minha participação na 3ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre e pela minha experiência como anarquista. É um texto impressionista, porém, talvez, toque em coisas importantes. Se aponto o dedo para xs anarquistas neste país, aponto também para mim mesmo…

2 Tem se argumentado que não votar trás problemas burocráticos no trabalho, para viajar, etc. Se não somos capazes de enfrentar isso, seremos capazes de quê? Isso pode pedir falsificações de documentos ou, quando muito, quando é mesmo muito necessário, pagar uma irrisória multa ao estado por nossa desobediência, porém, teremos marcado a mesma nas eleições…